
chega o honorable alcalde, o senhor general, o senhor vice-ministro, e os outros.

obviamente, tudo foi preparado com rigor. os cartazes agradecem a todos. coincidentemente escritos com a mesma letra.

canta-se o hino

fazem-se os discursos – uns melhores que outros, num país politizado é melhor fazer maus discursos do que bons, ou pelo menos assim me tento desculpar. antes de mim vem alguém que diz “e assim inauguramos esta vila que se chama – laaaa niña autonóóómmica!!!”. “boa…, já estás…”

torra-se ao sol

aguentam-se os cartazes até ao fim

entregam-se as chaves ao honorável alcalde. vem um gajo com uma almofadinha com as chave gigante e pergunta-lhe o je “dou-lhe a almofada ou dou-lhe só a chave”. “só a chave, faz favor”. “ok”.

saca-se a fotografia com o doador e a equipa de trabalho. tudo contente. as gémeas vieram mesmo a calhar.

dá-se uma volta pelo bairro e descobrem-se lojas que já abriram (esta senhora não se mudou hoje…)

tiram-se mais fotografias para mandar para a europa



e vai-se almoçar contente, que a festa foi rija.
amanhã, la paz-miami. depois de amanhã miami-porto do principe. outros vôos. à bientôt.
Filed under: BOLIVIA

logo às 8 da manhã ao chegar ao aeroporto, a tentar fugir da comitiva para fumar um cigarro. vamos primeiro à alcaldia, dizem. chegados, sessão extraordinária do consejo. “que es deber del Gobierno Municipal Autónomo dar la bienvenida y distinguir a tan dignas personalidades, así como desearle una grata permanencia entre nosotros” dizem. “por tanto: el Gobierno Municipal de Trinidad DECLARA:”


há dias que começam bem. o miúdo da comitiva leva com uma ordenanza municipal que até apita. fiiiiiiixxxeee. e de uma cidade que se chama “santísima trinidad”. abençoado.
e asi me voy.
Filed under: BOLIVIA
que tenha passado o tempo e que me esteja a pirar de la paz. dureza da pura, um frio do caraças, país estranho. “peró nuño, que de bonito llevas de bolivia?” pergunta-me uma das boas pessoas que se deu a conhecer. “bueno, llevo este casaco…”. era piada. levo muitas mais coisas. por exemplo, levo muitos mais glóbulos vermelhos, muitos mas muitos mais. e a opinião, dividida, em relação à gente. uns muito bons, outros excepcionalmente – ainda se escreve com pê? – inseguros, pequenitos tiranos. vi as lamas, e os lagos, andei nos rios e nas florestas, desci montanhas. li jornais e comi morangos desde o dia que cheguei. porreiro, bom para os turistas. mas puuutcha, desenfreadamente chata para morar.
fechada no meio das montanhas, la paz é um enclave e experiências em enclaves demoram tempo a mastigar. diz o experto. a ver se das antilhas lhe vejo mais brilho. pode ser. que um dia cheguem saudades da vidinha urbano-montanhesa – o que desafortunadamente será pouco provável.
Filed under: BOLIVIA
noutro país: hoje o senhor das notícias abria o espectáculo com os olhos bem abertos e a voz endurecida pela fatalidade. e dizia, com sotaque do porto, “esta tarde, às 15:45 estourou na avenida mais concorrida da capital um engenho explosivo de grande potência. não há registo de feridos nem de danos materiais de monta. à hora da explosão a avenida encontrava-se cheia de gente, que assim que ouviu o estrondo foi o ver se te avias e cada um começou a correr para seu lado. vamos agora entrevistar uma senhora que estava perto do lugar da explosão” voz esganiçada “ai minha nossa senhora, foi horrível, eu não sabia de onde vinha a explosão, cada um começou a correr para se abrigar, foi horrível” e continuava o senhor das notícias, com imagens de fumo “vemos agora umas imagens recolhidas momentos depois com telemóvel. a polícia fechou de imediato a área ao trânsito e evacuou os edifícios nas imediações. as investigações continuam”.
neste país: vem uma manifestação de mineiros pela avenida principal abaixo que às 15:45 pára mais ou menos à frente do meu escritório. eles gritam palavras de ordem, mascam a coca e depois sentam-se para descansar. nós continuamos a trabalhar que isto é o pão nosso de cada dia. eles, já descansados, rebentam uma carga de dinamite incrível – pelo menos muito maior que as que os outros costumam rebentar. os coleguinhas continuam impávidos a escrever os “informes”, sem saltar na cadeira, sem desviar os olhos do computador. só um é que olhou para a janela e soltou um “pu-tcha!”. e pronto. voltou a escrever o “informe”.

como o nuñez gosta é de ilhas e praias, passou o dia a encaixotar as tralhas. falta uma semaninha para voltar a ver o mar. guilherme, bela ideia, esqueceste-te desta. deve dar uma bela boneca.
Filed under: PORTUGAL

o patriotismo estúpido que de vez em quando, sem convite e sem razão, resolve vir-nos parar à ponta da língua. ao almoço com um argentino espanhol, um espanhol catalão, e dois bolivianos. tudo em habla de nuestros hermanos. o catalão conta que a sua região foi parte de frança e que há uma lenda de tambores a ecoar pelos pirinéus que lhes valeu uma borla nas lutas contra os franceses. escuto-me a mim mesmo, em tugonhól-boliviano “sabes, las leyendas que tenemos nosotros son de héroes en batallas con los españoles o contra los moros, que haaaartos teníamos en portugal. hay una bien rara, de una, como se llama, una mujer que hace pan?, panadera eso, que mientras se entablaba la batalla de aljubarrota hay limpiado con su maza unos pocos de españoles. tiene una estatua y todo”. rimo-nos. estranha e especial felicidade por traduzir para habla espanhola o feito da senhora brites. acostumado a não deixar o patriotismo pôr-se em muitas palavras, comedi-me de contar como o afonso meteu a espanhola mãe na gaiola.
Filed under: POR AÍ

esplanadas, festas, quénia, tanzânia, safaris, trabalho, leões e zebras, idps, zanzibar, portugal com frio, indonésia, timor, vidinha, e praia, turquia, neve, trabalho, tailândia, indonésia, timor, acabar trabalho, risos, estado de sítio, medo, música, tutuala, baucau, idps, china, timor, jardim sem tendas, metinaro, impaciência, bali, portugal, genebra, novo mundo, states, bolívia, trabalho, casas, idps, avionetas, montanhas, falta de ar, chá de coca, frio, amazónia, haiti, idps, furacões, equipa, trabalho, states, descanso, bolivia, lago, manual, estado de sítio, barcos, bom trabalho, mau trabalho, pachamama, peru, la paz, genebra, portugal, férias, risos, bolivia, trabalho, avionetas, amazónia, risos, trabalho acabado, brasil, bolivia, longe. outra volta ao sol. gastaram-se mais 31557600 segundos.
Filed under: AMAZÓNIA







e porque conheci as melhores gentes nem me apetecia voltar à paz.

982 metros cúbicos de areia + 264.000 quilos de cimento + 500 trabalhadores (1) + 2,8 kilómetros de vigas 4″ * 6″ + 116 barras de ferro + 1,1 toneladas de pregos + 22,9 kilómetros de vigas 2″ * 6″ + 30,9 kilómetros de ripa 2″ * 2″ + 263.580 telhas (2) + 200 portas + 200 janelas + 903.200 tijolos (3) + paciência de santo + quase dar em maluco + comprar cimento a três dias de viagem por causa dos problemas + chatices + afinal valeu a pena = 200 casas para 945 pessoas (4) a inaugurar para a semana





notas: (1) na semana a seguir ao pagamento o número reduz-se a uns 100, se tanto, aumentando gradualmente até ao final do mês e conforme se lhes vai acabando a guita; (2) o gajo das telhas encavou-se porque tendo o monopólio nos cobrava o que queria, arranjaram-se materiais alternativos para metade das casas; (3) feitos localmente a dar emprego a centenas de gente, o que foi boa onda; (4) se não se acabar a guita aos outros 300 gajos esta semana e eles não decidirem voltar ao trabalho, no dia da inauguração vão faltar umas doze, mas não há espiga.








