




à noite, daqui do alto da varanda, sem carro, sem poder ir a lado nenhum e aborrecido como a merda, resta-me deixar crescer o cabelo e fazer umas tranças, e/ou ler livros, e/ou escrever posts no blog. até sexta feira.
meu, se há coisa pior que ter que ficar em casa a trabalhar na sexta feira à noite, é ter que ficar em casa a trabalhar na sexta feira à noite, estarem 40 graus à sexta feira à noite, haver uma festa e tambores do voodoo e gente a cantar mesmo aqui ao lado, não conseguir ter o pé sem marcar o ritmo e estar a trovejar desde há uma semana sem cair uma pinga d’água. e se ainda há coisa pior, é isto tudo, já ser meia noite mais o relatório ainda não estar nem perto de acabado.
chegado, mas sem ter saído da magia alfacinha. a misturá-la aos bocados com os pássaros que passam à frente da casa, os casais de louros que voam contra o sol, a tirar depressa a música religiosa que passa na rádio, a pôr depressa royksopps, nitin sawhneys, hirds e burakas soms sistemas, em shuffle. a entrar devagar. tranquilo. a planear passar as duas semaninhas de port au prince a fingir que esta é uma europa tropical.
para descansar no fim de semana e ver se alguma coisa que não tenha a ver com trabalho me passa pela cabeça. pode ser que domingo diga qualquer coisa das massagens suecas. a ver.
pensar que se vai dormir até tarde porque é feriado e acabar a acordar de madrugada com as cantarolices dos “fiéis” que vão “orar” a uma gruta ali por trás do arvoredo – 6:30 – check. misturar cinco frutas e hortaliças dentro da zumideira e beber um zumito ultra -vitamínico para dar cabo do jetlag – 7:00 – check. dar 50 voltas à piscina e apanhar sol até secar os calções – 7:40 – check, mas foram só 40 voltas, para começar. barrela semanal, tudo bem lavadinho – 8:30 – check. o que é porreiro, dá tempo que chega e sobeja para encher chouriços até às 4:30 da tarde – hora do cinema em casa da M.
Filed under: Port-au-Prince
isto tem festivais e tudo. não admira que não dê tempo para fazer upedaites no blog.
não sei se é a carrinha dos gelados, ou outra carrinha. ou um sino da igreja de uma seita qualquer. mas a música do titanic aparece todos os dias vinda não se sabe de onde. será que esta metade da ilha se vai afundar?
véspera de natal e o escritório cheio de gente, que trabalha como se fosse outro dia qualquer. não está ninguém com pressas para as compras, ninguém fala em planos, ninguém vai de viagem. os filipinos e a mauriciana telefonam às cinco da tarde, dizem que vão jantar fora, se eu quero ir também. – sim, vou só dormir uma sesta e às sete encontramo-nos aqui.
e a consoada começa. no mosaik um come caril de camarão, outro pede o peixe do dia, a moça escolhe um sashimi e o último prefere os bifes com batatas fritas. “tá aqui uma ceia” – olhe um rum sour faz favor – dois – três – quatro “bem, todos bebem, não devem ser muçulmanos. nem sei a religião destes gajos. também não me importa”. alguém pergunta a um dos filipinos – e a tua mulher, não veio? – não, diz que lhe doía a cabeça, deve ser ainda do jetlag, ficou-se por casa e deve estar no skype. vêm as sobremesas, boas, para acabar a comezaina em beleza. conversas civilizadas. vamos? vamos.
o restaurante não é longe da igreja católica. às onze da noite ainda estavam as lojas abertas. as portas da missa do galo abriam-se para os fiéis, bem vestidos, muitos e muitas com chapéus de pai natal da cabeça. muitos e muitas neste país quer dizer multidões de muitos e de muitas, metade de barrete. “lindo, os do azeite deviam fazer aqui o anúncio para o ano que vem, iam ver o fartote”.
e pelas ladeiras abaixo as ruas continuaram cheias de gente, as vendedoras sentadas no chão com os ananazes e as tangerinas e os sapatos como se não fossem mais que nove da manhã. nem sei quantos bailes passámos, uns quatro ou cinco, todos plantados no meio dos cruzamentos principais. buzinadelas, gente a dançar a toda a volta do carro, meio despida – o natal aqui é sempre assim? – não, o ano passado foi bastante parado. fogos de artifício. fogos de artifício. foguetes. fogos de artifício. – estes gajos são malucos… olha, este está a vender fogos de artifício no semáforo.
como a varanda é alta dá para ver a cidade toda. ouviam-se as músicas e a gente por todo o lado. é certo, ouve-se sempre gente nesta cidade, tapada pelas árvores. mas ontem era mais. adormeci. de manhã o dia apareceu calmo como nunca tinha visto, sem barulho, nem trânsito e às oito e meia só se ouviam os pássaros. e às nove a campaínha. a campaínha? – quem é? – a senhora que limpa a casa e que só fala crioulo e diz pelo meio Madame M e casa e duas ou três palavras que o Messieur pode reconhecer. – bon ju, madame o que é que está aqui a fazer hoje? a limpeza é às segundas às quartas e às sextas, e para mais hoje é dia de natal! – c’est ça, hoje é dia de natal, por isso vim limpar arrumar a casa. c’est ça. – humm, c’est ça. merci. “vá um gajo entender esta gente” – quer café, madame?



