Filed under: JAPAN
muito obrigadinha, senhor tuga, que nos veio aqui visitar. estamos muito honrados pela sua visita. arigatô. arigatô. olha. até vou dar aqui uns toquezinhos no gongozito que trago sempre pendurado no pescoço. arigatô. arigatô. arigatô.

Filed under: HAITI
telefonema
- tou, olha, tás boa?
ela responde com o mesmo entusiasmo de sempre. desemocionada. fria e cool. sem emoção na voz. como se o último telefonema tivesse sido ontem e não há quatro meses atrás. – tou, e tu?
- olha, já tiveste um torçolho? pergunta ele.
- já.
- e o que é que um gajo faz? tou com uma merda dessas desde sexta feira.
- pá… pões uma pomadinha e esperas. isso passa.
- pois… ando a fazer isso.
médica
- pá, se quiseres no fim de semana pergunto à s. o que é que podes fazer. ela diz qual é o remédio indicado.
- pois… olha… no fim de semana fui ao médico. uma senhora. haitiana. era fim de semana grande, só ela é que estava de serviço na clínica. cheguei, sentei-me, disse-lhe que tinha um torçolho. disse: torçoille e apontei com o dedo para o olho e ela percebeu. (risos dela. finalmente ele consegue-lhe arrancar a desemoção da voz). ela era tão boa tão boa que nem se levantou para ver. pegou num livro, leu rápido, uns 20 segundos, e diz:
- vous avez des alergias?
- não.
- vous avez sinusite?
- às vezes.
- allors, então tem alergias. o torçoille é uma alergia, non plus. e começa a escrever. vous alez fazer umas análisesinhas ao sangue para vermos a que é que vous etes alérgico e entretanto toma estes comprimidos (dá-me a receita). são contra as alergias. para o torçoille. depois vem cá amanhã mostrar os resultados.
- e onde é que compro os comprimidos doutora?
- ici même, aqui mesmo na nossa farmácia, no andar de baixo. e aponta para baixo.
- obrigadinha. mercis.
farmácia
- depois, chego à farmácia e pergunto se há o medicamento. dizem que não. só na farmácia do champs de mars, que tem tudo e está aberta (e que muito certamente era da prima dela). pois, mas a farmácia não tinha tudo. tinha dois frascos de betadine nas prateleiras atrás do balcão, um cartaz, umas caixas de compressas e meia dúzia de frascos dos que se compram nos aeroportos. parecia a loja do senhor arnaldo. (gargalhadas) nada!! não havia nada.
- (gargalhadas) a sério?
- sim. muito menos o que eu precisava.
médica
- sim. então, no dia a seguir, era segunda, tentei ir a outro médico. fui aos argentinos da UN (gargalhadas), que estava tudo fechado. porque era feriado. era dia… bem… dos zombies…
- dia dos quê?
- dos zombies (ele fala baixo. pensa duas vezes para não se enganar.)
- dos quê??
- dos zombies!! (ele fala alto. sim. parece-lhe mentira que não tenha dado por haver um detalhe sórdido na história).
- (gargalhadas). a sério? dos zombies? (gargalhadas)
- (gargalhadas). sim, a sério.(gargalhadas).
secretária
por esta altura já nem ele nem ela conseguiam fazer uma frase sem risos. ele chorava a rir. ela, conhecendo-a, também.
- e hoje de manhã, como já passou uma semana desde que esta merda me apareceu e está um bocado melhor mas ainda não passou, cheguei ao escritório e pedi à senhora da recepção para me marcar uma consulta com o oftalmologista. disse que não, que não ia marcar, que eu não devia ir ao médico e que por nada devia tentar fazer qualquer tratamento.
- ahhh!!
bolinha
- sim. (gargalhadas). sabes porquê? (gargalhadas)
- não. (gargalhadas). por… (gargalhadas) … quê? (gargalhadas)
- diz que os haitianos acreditam no poder do torçolho. (gargalhadas). que é uma cena que o corpo tenta expulsar. e que nunca se deve contrariar, sob risco de que o torçolho se vá alojar noutro sítio qualquer. (gargalhadas) e provou que estava certa. quando me disse isto depois sentou-se no sofá, (gargalhadas) e mostrou-me a perna, onde tem uma bolinha (gargalhadas) a cima do joelho. diz ela que aquilo é um torçolho mal parado, que foi para ali e que nunca mais passou (gargalhadas. ele mal conseguia falar. a chatice que o andava a aborrecer desde que o torçolho lhe apareceu desvaneceu-se em risos. era bom contar a história, estúpida história, a alguém que igualmente se ria dos mesmos ridículos)
- (gargalhadas)
- (gargalhadas)
- (gargalhadas)
- e pronto, andei a manhã toda a tentar ligar eu mesmo para marcar a puta da consulta. a secretária disse que não o fazia nem por nada.
- (gargalhadas)
- (gargalhadas)
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planos para novembro:
curar o jetlag; arrumar as fotos; dormir; trabalhar; fazer desporto; arrumar o quarto; actualizar o blog; evitar muita andança.
(especialmente dedicado ao esteves, à dorte, ao manel, à valentina, à jolanda, ao paraíso, à keryn, ao joão, à clementina, aos chofferes, à sara, ao luís, à torunn, ao peter e à angela. e se me esqueço de alguém que tenha andado a comer pó, a gritar, a ouvir gritos, a mediar teimosias e desesperos, é por falta de tempo, desculpas.)

polícia à espera pela manhã. recebe o briefing. tira a foto.

5,000 famílias estão à espera pela manhã e ocupam metade do parque de estacionamento. em fila e numeradas. vão começando a entrar e a receber nfi’s.

sistema de som instalado no parque de estacionamento do centro comercial vai dando instruções (e.g. como utilizar o líquido para purificar a água).



as 5,000 famílias vão passando na linha de recepção. entre as 8 da manhã e a 1 da tarde.

organizadamente. sem gritar. sem atropelos. sem indisciplina. sem polícia por perto.

os postos de recepção estão localizados depois das mesas de registro (6 mesas com três pessoas cada). entre as mesas, os pontos de recepção e os pontos de embalagem final estão em permanência indivíduos a indicar para onde as pessoas devem prosseguir. atrás dos pontos de recepção estão os camiões com contentores e os homens que descarregam, desembalam e distribuem as embalagens de items por cada mesa de recepção. eles asseguram a continuidade das operações.

as pessoas vão saindo, calmamente. a conversar. organizadas. a polícia indica-lhes o caminho.

a senhora presidente da empresa de centros comerciais vem embalar uns kits e cumprimentar as pessoas. é muito simpática.

quando o número de beneficiários se reduz as grades que dividiam as filas numeradas por bairro deixam de ser necessárias.

a ambulância, utilizada várias vezes durante o dia, está ainda pronta para o que for necessário. lá atrás o parque já está vazio.

a àrea do parque de estacionamento que estava cheia de pessoas deve, no final da distribuição, ficar impecavel, sem lixo ou traço de que tanta gente lá esteve à espera durante o dia. o centro comercial manda duas pessoas varrer tudo e apanhar o lixo.

a última pessoa da fila tem direito a uma foto especial

a equipa de trabalho tem direito a uma foto especial. (tudo isto ao som do famoso “welcome to the world of SM, SM, SM Super Malls”).













