muxx


dia de portugal
June 10, 2007, 12:10 am
Filed under: EAST TIMOR, PORTUGAL, TIMOR LESTE | Tags:

há já uns anos chamaram-me de volta à universidade para contar a minha integração na vida pós-instituto-superior-de-agronomia-em-que-ainda-dependia-de-outrém-para-pagar-a-renda. sentei-me numa cadeira no isa em frente à comissão de avaliação de licenciaturas ladeado de outros, que como eu, já tinham que trabalhar para poder pagar as suas próprias rendas.

um destes meus ex-colegas surpreendeu-me quando afirmou no meio da sua intervenção que “e devemo-nos deixar de ter preconceitos, ou de deixarmos de pensar que no nosso país não se fazem coisas boas, nós também fazemos. aborreço-me com colegas meus que foram estudar lá fora e depois vêem com a mania de que lá é que é bom, que os outros é que fazem as coisas bem, que nós, coitados, não fazemos muito que se aproveite. aborreço-me com a falta de, digamos, patriotismo com que estes colegas nos premeiam depois de terem sido contemplados com uma bolsa de estudo, paga por nós, para ir lá para fora” e continuou, num discurso de tal modo cíclico, enfadonho e desinformado – sempre a passar pelo “lá fora” “cá dentro” “falta de patriotismo” que se na altura soubesse o que sei hoje não me teria dado ao trabalho de me ressentir.

pedi para falar e um dos senhores da comissão lá me deu a palavra. disse várias coisas, disse que gostei muito de estudar no isa, que senti ter bons professores em algumas áreas de estudo, que o ambiente e os amigos que fiz me marcariam por muitos anos – esta era a parte boa do discurso – disse que não aprendemos muito de política, nem do que era o inga ou o ifadap, ou de como pedir um subsídio e de que assim que passei a ter que trabalhar-para-pagar-a-renda descobri que a agricultura em portugal não era muito mais do que o inga e o ifadap e os subsídios; disse que tinha estudado lá fora, numa universidade até conceituada – a de bolonha – e que cheguei ao isa e me alteraram as notas que os professores italianos me tinham dado, disse que as alteraram invariavelmente para valores inferiores, por quantidades variáveis de 3 a 6 valores – querendo isto dizer que numa cadeira em que os italianos me aprovaram com o equivalente a 20 por ter respondido a tudo correctamente me baixaram a nota para 17, noutra cadeira que se chamava técnicas de regadio, que me ficou no goto, em portugal o professor decidiu baixar-me a nota de 17 para 11 – achando eu que isso não me parecia bem a mim nem pareceria aos professores italianos se soubessem que os portugueses os tinham como tão menos capazes de ensinar e avaliar alunos. disse que o programa das disciplinas no isa era pouco prático em comparação com os da universidade estrangeira. disse que nos faltavam regulamentos que definissem as regras do abaixamento das notas, por exemplo, para que não déssemos por nós no final do esforço feito à mercê da grandeza do ego de cada um dos professores portugueses.

A esta altura já o meu ex-colega patriota dava sinais de impaciência, lá estava mais um desses sacanas a quem nós pagámos para ir estudar lá fora a dizer mal de nós quando comparados com os estrangeiros. Aproveitei um olhar de lado e de meio desprezo que ele me deitou para dar o que achei ser o merecido remate final. Resolvi dizer que discordava bastante dele, que os portugueses quando se vêem no estrangeiro até aborrecem bastante os outros a falar das maravilhas do seu país – sejam em forma de praias, de verões e primaveras cheios de esplanadas, ou de iscas com batatas fritas às rodelas. Que por norma se tornam, como me aconteceu a mim em itália, muito mais patriotas do que se continuarem a olhar só para o seu país. Que dei por mim muitas vezes a descrever portugal e os portugueses aos estrangeiros como se fossem duas das maravilhas do mundo ainda por descobrir. Que também me custou reconhecer-me quando pensava que as festas de verão, o santo antónio, o bairro alto, a luz de lisboa, e tudo o mais em portugal eram realmente inigualáveis. Dei por mim a pensar que os estrangeiros nos vêm com defeitos porque não nos compreendem como nós nos compreendemos, senão viam que ali estava muito potencial para uma grande qualidade.

Depois de uns anos, com tempo – muito dele no estrangeiro – para amadurecer estas ideias continuo a sentir amor à pátria quando me faltam os detalhes culturais que me fazem sentir confortável com portugueses ou quando os atacam, coisa não pouco rara de outros estrangeiros fazerem em terras timorenses. aprendi contudo a manter as minhas profundas convicções sem aborrecer gente que vê tantas das nossas qualidades como defeitos. digo-o hoje com vontade, até porque é dia para o dizer, “viva portugal”, pelo menos este que nós daqui de fora mantemos dentro de nós. pergunto-me agora se o meu ex-colega terá hoje pensado no assunto.


10 Comments so far
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É isso mesmo…

P.S. O Bruno tá cá comigo.

Abraços

Comment by PrimaNocte

os manos na áfrica, d’après herge. traz a banda desenhada quando formos de férias.

Comment by mmux

Nem mais…

Comment by ordep

Grande Nunes,
Os Portugueses que estão cá dentro têm a certeza que os Portugueses que estão lá fora defendem este Portugal com unhas e dentes…
Mesmo que às vezes não tenhamos razão!
Também temos de ter capacidade de analisar os nossos defeitos…

Grande abraço

Comment by Cervejas

Fazei que os outros entendam que aquele mal de que falam nao é mal… é bem!!!

Comment by T.

oh cervejas, diz lá ao casal garcia que já deviam ter dado um saltinho ao post deles. tenho aqui uma amiguinha que vai para a croácia, já lhe tive a mostrar as nossas fotos. não te esqueças de que também já te vi nas ruas de makarska com uma bandeira pendurada ao pescoço, a fazer de “Super-Tuga” depois da vitória de Portugal à Inglaterra. O ex-colega de que eu falo era bastante diferente.

Comment by mmux

Grande filho, tenho muito orgulho de ti.

Comment by a2mar & nandinha

Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma

E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo até ao fim do mundo
E viu-se a Terra inteira, de repente
Surgir redonda do azul profundo

Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o império se desfez
Senhor falta cumprir-se Portugal

Comment by Rafa Statt

grande mãe, também eu tenho muito orgulho em ti! é mesmo à mãe! desde quando é que aprendeste a pôr comentários? tenho que passar a ter mais cuidado com os meus devaneios bloguísticos. um beijo

Comment by mmux

rafa, o acrescento que fizeste deu para te tornares numa bela poeta. muy encantado.

Comment by mmux




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