muxx


mordomias
October 27, 2008, 8:17 pm
Filed under: EAST TIMOR, VÍCIOS

anos a viver em países menos desenvolvidos e a contribuir para melhorar a economia local. pessoas iletradas, mães solteiras, velhotes reformados, gente desempregada. que conhecia melhor os cantos das casas do que eu. ali, paralelos à vida. cheios de importância e sempre prontos. quase invisíveis.

angelina de dili, cozinheira. sempre grávida, sempre a mascar areca, sempre a pôr-me a roupa na máquina às 8 da manhã, sempre a arrumar os muitos quartos da casa durante a manhã toda, sempre a ir pondo a roupa dos outros na máquina por cima da minha, sempre a deixar-me as calças, as tshirts, os calções as meias e as cuecas a lavar dentro da máquina durante quatro a cinco horas por dia. nunca percebeu o que era isso de não misturar as cores. sempre a rir-se quando a roupa toda saía da esfrega diária azul-rosada. partia muito bem o ananás.

augusto de natarbora, cozinheiro. com algumas sessenta primaveras, antigo criado dos militares portugueses antes de 1974, teimoso que nem um burro. ia ao mercado fazer compras às cinco da manhã com o seu cavalito. cozinhava mal. obrigava-me a comer as coisas mais amargas da terra porque era bom para a malária. não usava o fogão porque tinha medo. os raros feijões frades, cebolas e atum trazidos da cidade para preparar uma saladinha, ele gastava-os a fazer uma omeleta. que não estava má. ensinou-me tetun. espero que esteja de saúde.

lusia do oecussi, empregada de estrangeiros que iam passando pelo enclave. abria-me o frigorífico por umas horas todas as manhãs “para sair o cheiro”. vinha de mototaxi, sentada à amazonas – que no oecusse sentar-se na mota com um desconhecido e com uma perna para cada lado não é de mulher digna. ao colo trazia a roupa lavada e passada. por cima da roupa trazia o gato. dizia que ele ia espantar os ratos que andavam no telhado. à tarde levava o gato outra vez para casa porque achava que eu não sabia tratar dele. contava-me dos problemas com as irmãs do namorado enquanto me fazia café. todos os dias. uma senhora.

afonso do oecussi, segurança. guardava-me a casa todas as noites e rezava até de madrugada. dava-me dicas de como lidar com a mulher do vizinho quando eles se punham a discutir e ela fugia a gritar para o degrau da minha casa. ela era louca. o marido também. a família toda também, mas ela era filha do rei. o afonso era bruxo acreditado que quando alguma coisa desaparecia da minha casa espalhava a notícia de que grandes males se iriam abater sobre o ladrão. funcionava e as coisas apareciam outra vez. fez-me a honra de trazer o bruxo mais conhecido e conceituado de timor inteiro para jantar no alpendre. colegas. de bést.

jacinta de dili, empregada de estrangeiros. ex professora, cinquenta e tal anos, fez-me decidir voltar a timor. mostrou-me como uma pessoa digna, educada, trabalhadora se pode de um dia para o outro ver privada de tudo. mostrou-me o que era estar sentada a caminho do aeroporto com medo, e raiva e sem saber se vai poder voltar para casa. voltou. sabia onde tudo estava guardado, conhece-me como poucos. ama o senhor carlos e o senhor carlos morre de amores por ela. um mimo.

yola de la paz, empregada de “oficinas” e de casas de gente com pasta. faz-me sumos de frutas e cafés todas as manhãs. traz-me o pão. é mãe de uma filha e o marido fugiu faz muito tempo. anda sempre de fato de treino. anda-me a arrumar a casa enquanto estou para aqui a escrever isto.

valem o seu peso em ouro.

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mokambo, mokambo, moookaambo, mokambo
August 1, 2008, 12:12 am
Filed under: BOLIVIA, CAFÉ, Santa Cruz, VÍCIOS | Tags:

o mmux tem descoberto que nem tudo são rosas no sul do novo mundo. aos poucos e poucos foi-se apercebendo de que a um dos bens matinais essenciais, a bica, lhe era regularmente negado o acesso. ou melhor, que encontrar um cafézinho, nem que fosse a chávenas de litro como as dos gringos verdadeiros, era mais que difícil.

nas primeiras semanas andou-se pelos encantos do mate e quase não deu pela falta do ouro preto. a altitude e o frio seco davam-lhe tal broa que lhe era impossível racionalizar os níveis de cafeína. nas últimas semanas, porém, começou a desconfiar de que afinal a situação não era tão simples como parecia.

começou primeiro no escritório, devagar, sem pressas: quiere un matecito? não, olhe, hoje apetecia-me um cafézinho. no tenemos, perdon. uma, duas, dez vezes. estranho… ainda não compraram café…. passaram-se os dias e ainda no escritório foram aparecendo sinais de que a relação com o líquido negro era ainda mais complicada. chegavam os convidados para as reuniões, vinha a senhora e perguntava-lhes quiere tomar algo? un matecito? un té? un café? um cafézinho, respondia o convidado. ai perdon, no tenemos, perdon. estranho… ainda não comprou café e anda para aí a oferecê-lo aos convidados… pensou o mmux.

depois, nas viagens de muitas horas que davam para chegar de lisboa a Madrid e voltar, o mesmo. o altiplano todo, de uma ponta à outra, das cinco e tal da manhã até sei lá a que horas da tarde, sem encontrar nem um sítio para beber um café. estranho…

finalmente se fez luz. na terça o mmux foi para o aeroporto às 6:30 da manhã para viajar até à amazónia, chegou, enfiou-se dentro de um jeep durante quatro horas e café nada. estou safo, vou ter uma reunião com o alcaide no escritório dele e oferece-me café concerteza. puro engano. o mmux estava deserto para beber nem que fosse um mokambo. nada, em vez disso o senhor alcalde ofereceu tangerinas que eram muito boas. até à noite à espera de ver um tasco com café sempre sem sorte.

na quarta o mmux acordou num hotel de cinco estrelas. pequeno almoço farto, ovos com tomate, ovos sem tomate, frutas tropicais, bolos, bolachas, torradas, queijos, leite, chá, yogurtes, tem café? não, desculpe, café não temos, acabou. é normal? perguntou-se o mmux – isto não é normal poi’ não?

dia seguinte, eram já 8 da manhã e estava na hora de uma reunião com outro alcalde, também no escritório dele. como o senhor se deixou dormir, o mmux convenceu a comitiva a levá-lo até onde se pudesse beber um café. imaginou, na sua ingenuidade, que o levariam a um dos tascos ali do lado. até chegou a pensar que alguém lhe diria que não se preocupasse que lhe fariam um café numa qualquer das imensas salas do edifício de dois andares. não. levaram-no a atravessar a praça principal e não pararam, viraram por uma rua à esquerda, andaram meio kilómetro, entraram no mercado que era um edifício em construção, subiram as escadas de cimento inacabadas, atravessaram o primeiro piso do mercado – muito grande – e por fim chegaram a um conjunto de 5 ou 6 bancas que tinham café. tipo talhos de praça, mas com café e uns bolinhos. estranho… pensou o mmux. olhe, tem desses pacotinhos de nescafé para vender? tengo pues! então dê-me cá dez carteirinhas para levar… hombre prevenido vale por dos!